segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Se seu sangue fizesse parte de mim. 4



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"       - Ah, cala a boca – interrompi ele e o empurrei para o lado – olha o que você fez com minha mesa, com minha xícara! – me abaixei e toquei os cacos com um forte sentimento de nostalgia. Cada pedaço ao chão lembrava minha avó, que havia me criado como filha.
        - O que raios é você?!
        Olhei nos olhos dele com fúria e falei em alto e bom som:
        - Uma bruxa.
        E com um gesto da minha mão direita o vi cair de joelhos e ser preso por fios de energia invisíveis e silenciosos."


Capítulo IV: Se essa rua fosse minha.


                Despertei e estava deitada em uma cama com espaldar alto e uma ventilação maravilhosa. Não fazia frio, mas o vento que soprava da grande janela aberta me fazia querer permanecer ali, parada. Então ouvi um grito. Imediatamente meus sentidos despertaram e com um pulo saí da cama, abri a porta e corri pelo corredor, descendo as escadas de marfim com meus pés descalços.
        Alastor, meu amante, estava ajoelhado no centro da sala, com as mãos atadas e o corpo desnudo. Os olhos azuis dele tinham agora uma cor mais escura, e me fitou com tamanho desejo fúria que um grande arrepio se espalhou em mistura de medo e admiração.
        Um círculo de sal estava em volta dele, minhas tias e minha mãe mantinham-se afastadas citando mantras, rezando, invocando um poder hostil contra ele, que gritava, urrava, e tentava se libertar daquele lugar. Dei um passo em sua direção, mas uma mão me parou, era meu pai que detinha olhos avermelhados e inchados de chorar.
        - Não Maria, ele já não é mais seu amado.
        Olhei mais uma vez e vi as presas que adornavam-lhe a boca, o sangue que lhe sujava o rosto. Alastor tornara-se uma criatura de trevas e de horror, e eu desconfiava que nunca mais poderia tocá-lo em segurança.
        - Criatura defunta, criatura instintiva – bradou alto minha tia mais velha, a líder do nosso grupo de bruxas – ser vazio que atrai a morte. Ouça meu decreto e nunca mais aqui volte, nunca mais teu nome nos dirá, nunca mais nosso coven encontrará. Nenhuma de nós será teu alvo, e isso sempre nos manterá a salvo. E te amaldiçoou a sempre desencontrar, nessa vida e nas outras, Eleonor e a qualquer outro nome que ela venha a se chamar!
        Ouvi ele gritar mais uma vez e desaparecer. E assim também desapareci.

        Acordei assustada, sentada no sofá, com o vampiro a minha frente. Alastor era seu nome, meu amado de outras épocas, amaldiçoado para ficar longe de mim, e agora tão perto que eu poderia tocá-lo.
        - Alastor – minha voz o atingiu em cheio e com surpresa um grande sorriso se fez. Em segundos me vi sendo abraçada por um vampiro que chorava em meu ombro.
        - Eu te procurei por toda parte, eu esqueci teu nome, mas nunca quem você era pra mim, eu...
        - Como me encontrou? – perguntei me afastando, o encarando.
        - Isso é realmente importante?
        Calei-me. Não, naquele instante não era importante. Naquele instante a minha maior necessidade era apenas a da atitude que tomei a seguir, enquanto todas as minhas células vibravam com o toque dele.

        O beijei novamente. E fui feliz.

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