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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quando saber que é amor?



Quando saber que é amor?

A gente escuta, quando criança, que o amor surge no horizonte como num passe de mágicas. E espera. E espera. E espera mais um pouco por esse amor que vai surgir. De repente vem um convite para um recital, ou uma peça de teatro. Olha para uma roupa puída no armário, pensa duas ou três vezes numa desculpa pra cancelar, mas vai mesmo assim. Abre os braços para a possibilidade de uma diversão momentânea, um sorriso com os amigos e, quem sabe, um bom chop gelado no fim da noite que vai lhe ajudar a dormir.
Vai ao lugar marcado e encontra um par de olhos famintos no meio da multidão. São olhos que te devoram feito criança quando encontra um pedaço de pizza. Ele te quer, você o quer. As mãos vão ao bolso da calça numa tentativa de enviar um sinal claro, pega-se um papel e uma caneta e entrega-se um número de telefone. Num outro dia se encontram. Uma hora aparece um beijo bom, um afago, um chocolate comprado na fila do cinema. Uma hora surge um pedaço de bolo divido na cantina da faculdade.
Ele tem os olhos da cor certa pra você, e você tem o sabor de liberdade que ele sempre buscou. O coração bate rápido. Os corpos se juntam até quando estão brigados. A mão vai ao rosto e parece encaixar. E quando dançam no meio da cozinha ao som de Rubel tudo o que você consegue pensar é: o quanto eu tenho sorte de amar. E aí você sabe... Você simplesmente sabe.
       
        Esse texto foi inspirado nessas cinco músicas que deixo como um dica para que escutem os corações apaixonados:


Malemolência - Céu

Quando ela
Pra você guardei o amor – Ana Cañas e Nando Reis.

Quando Bate Aquela saudade - Rubel

Efêmera – Tulipa Ruiz.

Só sei dançar com você – Tulipa Ruiz


        Estamos de volta toda sexta com textos sobre sentimentos e o cotidiano. Próxima semana será cheia de novidades para os leitores do blog ;) Quaisquer dúvidas aqui estão alguns dos meus contatos:

alexandre.npinheiro@gmail.com
facebook.com/teunomeeamor
Insta: @teunomeeamor
teunomeeamor.blogspot.com.br

Teu nome é amor, e todo amor do mundo pra vocês.
Alexandre N. Pinheiro. 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Nem toda história de amor... 3


Capítulo Anterior: https://goo.gl/ShPYza


Prévia
Ele afastou-se num passo da dança, olhando-me profundamente e todas minhas dúvidas foram sanadas. Havia uma urgência, uma necessidade... Ele sabia de algo que eu não desconfiava. E então a festa fez mais sentido, a pompa... Eles iriam noivar.
        - E então?
         Música parou, eu respirei fundo, acenei que sim com a cabeça em uma atitude impulsiva e me afastei, aproveitando a distração da música para subir ao meu quarto. Pegaria o que me era mais importante e fugiríamos. Seja lá para onde fosse, fazer o que quer que fosse... eu estaria com ele e ele comigo e isso era o bastante.
        Se ao menos tivéssemos conseguido fugir... tudo teria sido diferente."


Capítulo III
...Tem tempo a perder.

        Quando desci já havia jogado pela janela uma trouxinha com algumas joias e outras bobagens que nos ajudariam a arrecadar algum dinheiro no futuro. Quando cheguei a sala ouvi que saudavam os dois. O noivado se delineava, meu pai me chamou para que os cumprimentasse e o fiz com forçada alegria. Eu amava minha irmã e queria a felicidade dela, mas não era nem de longe amor que Sophia sentia, era apenas um desejo por liberdade que no futuro entenderia que o casamento não se tratava disso.
        Caminhei até eles e fiz o que deveria. Minha irmã olhou-me sorrindo, mas este não alcançava os olhos. Afastei-me e vi todas as tramas envolvidas naquele momento, saí para a varanda quando tudo amenizou e a festa prosseguiu normalmente. Parei notando a Lua e pensando se deveria realmente seguir, se seria justo com as pessoas que estavam lá. Minha irmã, meus pais... deixei um bilhete escondido no travesseiro explicando o que acontecia brevemente.
        Andei até a trouxa jogada abaixo da minha janela e segui para os estábulos. Meus pais não dariam por minha falta naquela altura da festa. Respirei profundamente e me deixei vagar por cada momento de felicidade que passei. As lembranças me inundaram com tal força que algumas lágrimas transbordaram.
        E então escutei um tiro e cavalos se aproximando da casa grande. Gritei e me encostei na porta, quase querendo me camuflar nela. Minhas pernas não se moviam. Apenas meus olhos observavam o movimento de pessoas na casa. Então vi um homem se aproximando a passos rápidos. Pensei que seria Enzo, mas logo notei ser Guilherme que vinha assustado.
        - Senhorita! O que faz aqui?!
        - Gui.... Guilherme – gaguejei sem conseguir sair do lugar. Ele olhou-me minhas mãos apertando a trouxinha e se compreendeu nunca disse. Apenas suspirou e segurou-me levemente pelo antebraço.
        - Você deve vir comigo senhorita.
        - O que aconteceu?
        - A guerra estourou.
        Foi tudo que precisou dizer-me para que desgrudasse do chão. Ele pegou-me a trouxinha e escondeu em um arbusto e retornou a me conduzir para a casa grande. Entramos pela cozinha e ele me levou em segurança até a sala de jantar onde as mulheres se reuniam esperando a decisão dos homens que conversavam na biblioteca.
        - Mamãe... - sussurrei ao abraça-la.
        - Onde você estava menina? – ela me segurou com força pelos ombros, olhando-me com desespero.
        - Eu...
        - Ela estava no quarto minha senhora – disse Guilherme – decidi trazê-la comigo para cá, seria mais seguro.
        - Sim, sim, agora saia, vá para a cozinha – ela disse com rispidez. Quando o rapaz saiu virou-se para mim e disse – eu odeio essa sua “amizade” com ele.
        - Mamãe, eu...
        E então a porta abriu e meu pai estava à frente do cortejo de homens. Enzo estava mais pálido e assustado, como quem acaba de saber da morte de um parente próximo. Imediatamente o medo dele me tomou, lágrimas pesadas escorreram e meu pai veio ao meu encontro para me consolar com um abraço sob o olhar reprovador de minha mãe.
        - A guerra está instaurada – a voz dele retumbou pela sala – não há o que ser feito. Nossos homens irão nos proteger, não se preocupem.

        “Nossos homens irão nos proteger, não se preocupem”. A frase reverberou. Eu imediatamente encarei Enzo que me olhava com a mesma intensidade. A tradução da frase para mim era simples... e eu preferia não dizê-la em voz alta.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Nem toda história de amor... 2


Capítulo Anterior: https://teunomeeamor.blogspot.com.br/2017/04/nem-toda-historia-de-amor-1.html

Prévia
"E o calei com um beijo. O gosto tão bem conhecido, a forma tão entregue, em pouco tempo apreciei mais aqueles lábios que o próprio vento a me libertar. Afastei-me para encará-lo. Ele afagou-me o rosto e simplesmente fechei os olhos para senti-lo melhor.
        - Você é a criatura mais livre e intensa que já conheci, Katarina...
        Abri os olhos e mergulhei na profundidade com que me encarava. Sorri e lhe disse:
        - E você é minha mais bela liberdade, Enzo.

        E deitei-me no peito dele sentindo-o respirar."


Capítulo II:

        Dias depois houve uma festa em minha casa. Todos da majestosa elite local estava presente, e não havia nada no mundo que me irritasse mais do que ter de estar com sorrisos perpétuos no rosto e doçura na voz, como fui educada para estar nessas ocasiões.
        A noite era perfeita, os vestidos estavam impecáveis, a comida muito bem servida e a bebida parecia criar o efeito certo nos convidados que não se preocupavam com nada. Saí da casa e da varanda observei a Lua quase cheia resplandecer quase em um tom responsável pela vida alheia na Terra.
        - Se sua mãe te ver assim observando a Lua te prende por bruxaria – quase grito ao me virar e ver meu pai rindo como um bobo com a piada tola.
        Gargalhei em seguida, batendo-lhe no peito.
        - O senhor não devia assustar-me assim, sabia?
        - E você deveria estar lá dentro me ajudando a conter as feras na sala de estar.
        - Ah pai...
        Ele sorriu, sabia que eu odiava aquilo tudo. Ele me abraçou e foi se afastando para voltar para a sala, dizendo sem palavras que estava tudo bem. Então ouvi o barulho de cavalos e uma carruagem. Paramos ambos, em seguida minha irmã mais velha saiu da casa com um sorriso bobo, parecendo ansiosa. E logo reconheci quem chegava, não foi preciso ver o cabelo loiro preso enquanto descia acompanhado da mãe.
        - Enzo! – minha irmã gritou e correu para recebê-lo. Meu pai rolou os olhos para o entusiasmo da jovem e começou a andar devagar na direção do jovem. Meu coração espremeu no peito e optei por fugir e entrar em casa.
        Tentei conter o coração, tentei escapar durante a festa para o meu quarto, mas não consegui. A cada fala dele, a cada respiração mais próxima a minha, desde o momento em que me cumprimentou até a hora em que minha mãe me obrigou a seguir com ele e minha irmã para a varanda enquanto esta era cortejada... Tudo me abria uma ferida e parecia despejar todo o sangue que pouco me sustentava.
        Enzo era prometido a Sophia, minha irmã. Antes que ambos nascessem. Antes que nós dois fôssemos nos apaixonando um pelo outro. Antes do primeiro beijo que demos escondidos de todos os olhares curiosos. E se me perguntarem direi que antes mesmo de existirmos já nos amávamos perdidamente.
        E então era a hora da dança no salão de festas. Trocamos olhares por quase toda a noite e aquele sempre havia sido o nosso momento de exaltação. Dançávamos sob os narizes de todos que nos impediam e tudo parecia bem... Até que naquele dia não parecia bem para mim.
        - Eu não quero mais – lhe sussurrei enquanto valsávamos – não consigo mais suportar isso.
        - Katarina – ele soou apreensivo.
        - A próxima a dançar contigo é minha irmã e eu sinto que irei me despedaçar mais um pouco quando isso acontecer.
        - Katarina.
        - Não aguento mais Enzo eu quero...
        - Fuja comigo.
        Quase tropeço ao escutá-lo, encarei-lhe em incredulidade e logo retornei a posição, rezando silenciosamente para que ninguém tivesse notado meu destempero.
        - Fuja comigo, hoje, agora, não vamos perder tempo...
        - E pra onde vamos? O que vamos fazer? Como vamos viver?
        Ele afastou-se num passo da dança, olhando-me profundamente e todas minhas dúvidas foram sanadas. Havia uma urgência, uma necessidade... Ele sabia de algo que eu não desconfiava. E então a festa fez mais sentido, a pompa... Eles iriam noivar.
        - E então?
         Música parou, eu respirei fundo, acenei que sim com a cabeça em uma atitude impulsiva e me afastei, aproveitando a distração da música para subir ao meu quarto. Pegaria o que me era mais importante e fugiríamos. Seja lá para onde fosse, fazer o que quer que fosse... eu estaria com ele e ele comigo e isso era o bastante.

        Se ao menos tivéssemos conseguido fugir... tudo teria sido diferente.

domingo, 6 de agosto de 2017

Nem toda história de amor... 4

Capítulo anterior: https://goo.gl/thjUMD

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"        - A guerra está instaurada – a voz dele retumbou pela sala – não há o que ser feito. Nossos homens irão nos proteger, não se preocupem.
        “Nossos homens irão nos proteger, não se preocupem”. A frase reverberou. Eu imediatamente encarei Enzo que me olhava com a mesma intensidade. A tradução da frase para mim era simples... e eu preferia não dizê-la em voz alta."        

Capítulo IV


        Enzo foi para a guerra. Meus pais nunca desconfiaram que fugiríamos ou mesmo sobre nosso amor. Anos passaram desde aquela fatídica festa e tudo estava mudado em minha cidade... Tudo parecia mais morto do que realmente foi um dia.
        Algoz morreu em setembro. Sophia casou-se em outubro. Tentaram conseguir um casamento para mim, mas recusei com todas as desculpas que pude inventar. A dor era tamanha que todos os dias acordava chorando a separação de meu amado e esperando pela notícia do retorno dele... Era apenas por isso que me mantinha viva.
        Mas foi em novembro que eu acordei de um modo diferente. Era noite e o clima abafado me fez perder o ar. Levantei da cama meio cambaleante, tateando as paredes e sentindo uma vontade imensa de respirar fora das paredes da casa. Desci as escadas e abri a porta de entrada de forma afoita e desesperada, lutando para puxar mais ar. Vi a noite e a brisa me chicotearem com uma sensação que havia esquecido no dia em que vi Enzo partir.
        - Não é muito tarde para estar acordada, senhorita?
        A voz dele me atacou. O tom desdenhoso e desafiante de sempre estavam lá. Virei-me para o lado e o vi sentado no balanço da varanda. Andei cautelosa, algo em mim duvidava e algo em mim ansiava por ele. E não sabia a qual impulso ceder. Sentei-me ao lado dele duvidando da minha sanidade e então lágrimas começaram a escorrer por meu rosto.
        - Sabe o que eu mais acho incrível em você?
        Acenei em negativa com a cabeça enquanto chorava e soluçava.
        - Você entende antes mesmo das palavras serem ditas.
        É verdade. Eu entendia. Eu entendia a minha urgência para sair de casa e vê-lo, o meu desejo por encontra-lo sendo maior que eu mesma, o sorriso que não desbotava no rosto dele e principalmente a farda suja de sangue que ele ainda vestia.
        - Quando aconteceu? – perguntei com a garganta doendo tanto quanto o coração.
        - Hoje pela manhã.
        - Como?
        - É realmente importante?
        Neguei com um aceno e escondi meu rosto nas mãos, enquanto chorava copiosamente. Enzo tomou-me os mãos entre as dele, essas geladas de um modo que não me incomodava, e pediu-me:
        - Não se esconda mais.
        - Eu nunca me escondi de ti, mas não pode me pedir isso quando...
        - Não Katarina, não se esconda mais do mundo.
        Meu coração parou um compasso, me aproximei dele um pouco e deitei-me em seu ombro. Senti-lo era tudo o que eu queria, era tudo o que precisava.
        - O que veio fazer aqui, Enzo?
        Ele levantou-se e segurando minha mão andamos pela fazenda a noite. Algoz estava parado um pouco mais adiante, nos esperando. Abracei-o apertado e chorei mais um pouco. Enzo me ajudou a montá-lo e senti-me novamente plena com meu amado e meu cavalo e partimos a correr pelos campos.
        A liberdade me perpassava, se entranhava em parte que eu mesma não sabia que existiam mais. Cada fio de cabelo, cada músculo ou veia, em mim ela era presente e intensa rompendo as barreiras que criei no decorrer dos últimos anos. Paramos em algum ponto entre árvores. Descemos. Enzo deitou-se na grama e eu deitei-me sobre seu peito.
        - Eu quero você, Enzo. – disse em voz baixa próxima ao lábio dele.
        - Eu nunca vou deixa-la.
        Beijei-o e adormeci sentindo a completude dele.


        Fui acordada deitada no balanço da varanda. Guilherme me sorria ternamente enquanto me levava para dentro da casa, meus pais dormiam ainda. Semanas depois soube do falecimento de Enzo. Mas daquele dia em diante não me permiti esquecê-lo e nem me esquecer... Sabendo-me plena com ele perto de mim.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Nem toda história de amor... 1

Capítulo I: ... começa sem um beijo.

                Fazia muito Sol naquela tarde de quarta-feira. Eu estava sentada na varanda, me balançando com o leque na mão, o vestido era pesado e dificultava minha respiração. Foi quando ele chegou, vestido com algo azul claro e tendo o cabelo loiro preso, cavalgando um alazão com um porte imponente e quase arrogante.
        - Bom dia, Katarina! – gritou-me ao se aproximar.
        - Bom dia Enzo.
        - O Sol está de matar, não é mesmo?
        - Talvez.
        - Ainda está brava comigo, senhorita?
        Olhei para o outro lado. Na verdade minha raiva já havia passado, mas ele não precisaria saber disso de prontidão.
        - Desculpa por ter lhe desafiado, jovem... Mas ainda duvido que consiga cavalgar tão bem quanto vosso pai afirmou.
        Ele riu desdenhoso e então lembrei porque estive com raiva. Levantei-me quase sutilmente, alisei o vestido como quem tenta se recompor e lhe disse em uma voz simples:
        - Então, meu caro Enzo, chegou a hora de me conhecer um pouco mais.
        Andei a passos firmes até o estábulo onde pedi que Guilherme, o meu fiel escudeiro, preparasse meu cavalo. Algoz o nome dele, negro e selvagem, imperioso tanto quanto a dona. Troquei-me também, vestindo algo mais próprio para o feito. Em pouco tempo estava montada, cavalgando para perto de Enzo que me esperava e ergueu uma sobrancelha ao me ver.
        - Está pronto? – perguntei-lhe e antes que ele ousasse responder bati levemente com o pé em Algoz e começamos a correr pelo pasto da fazenda.
        Enzo veio ao meu encalço, gritando para que parasse, que iria me machucar e tolices assim. Mas o vento em meu cabelo, o poder de decisão em minhas mãos, faziam meu corpo pulsar como se a própria centelha do início da vida estivesse em minhas entranhas. Não era para desafiá-lo ou prova-lo algo... Era pra sentir, saber que o mundo ao meu redor era pequeno perante aquele momento.
        Longe da casa grande, em um ponto que poucos iam, decidi parar e descer. Amarrei Algoz em uma árvore e o agradeci prontamente pela dedicação e carinho com o qual me levava. Algo me dizia que ele cuidava de mim, que era mais fácil ele se machucar do que eu naqueles momentos de imensa liberdade de compartilhamos.
        - Você está louca?! – Gritou-me Enzo enquanto vinha ao meu encontro, também tendo descido e amarrado o cavalo.
        - Nunca mais me desafie.
        - Se eu soubesse que era tão louca não teria desafiado mesmo não!
        Vendo-o parado a minha frente, com os olhos sobressaltado o cabelo meio assanhado, não tive outra reação a não ser me jogar nele. Caímos de forma desajustada, ele segurando-me pela cintura e aparando nossa queda.
        - Katarina! Aqui não é lugar para...
        E o calei com um beijo. O gosto tão bem conhecido, a forma tão entregue, em pouco tempo apreciei mais aqueles lábios que o próprio vento a me libertar. Afastei-me para encará-lo. Ele afagou-me o rosto e simplesmente fechei os olhos para senti-lo melhor.
        - Você é a criatura mais livre e intensa que já conheci, Katarina...
        Abri os olhos e mergulhei na profundidade com que me encarava. Sorri e lhe disse:
        - E você é minha mais bela liberdade, Enzo.

        E deitei-me no peito dele sentindo-o respirar.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Senti sua falta. 4



Prévia

        "- Você é um covarde, que não merece o namorado que tem.
        - E você merece?
        - Claro, eu o amo.
        Aquilo bastou. Um soco certeiro no meu nariz, a voz do Matheus gritando e empurrando o Daniel, a turma toda que havia se formado perto da gente falando algo que não escutei direito. Só sei que aquele soco bastou para eu cair no chão."



        Capítulo IV: Não esperava por essa?

        Caído no chão vi o Matheus empurrando Daniel para longe e as pessoas ao redor murmurarem algo. De repente o meu amigo se ajoelhou ao meu lado, tocou-me o nariz que sangrava e me perguntou se eu estava bem. Fiz que sim com a cabeça, doía, mas tudo bem. Então ele me perguntou:
        - Você me ama?
        - Não é óbvio? – respondi com a voz esquisita.
        - Como amigo?
        - Não apenas isso...
        Ele fez um gesto de compreensão com a cabeça e se levantou. Daniel estava sendo segurado por dois alunos do nosso semestre, amigos nossos.
        - Vai defender ele agora?! – Daniel gritou – ele me insultou, ele...
        - Ele é dez mil vezes mais homem que você.
        Nunca ouvi a voz do Matheus tão seca e tão potente. Levantei-me do chão, segurando o nariz que sangrava, enquanto observava a cara aturdida do Daniel. Ele não esperava por isso... Nem eu.
        - Como você ousa?!
        - Soltem ele – Matheus falou uma ordem fria e os meninos se afastaram.
        - Vai dar uma de macho agora é?
Daniel partiu para cima do Matheus e eu dei um passo a frente, mas não foi preciso fazer nada. Em uma fração de segundos Matheus se virou para mim e me beijou. Não importava a dor. O que importava era que ele estava comigo e nada mais.
Daniel, atordoado, ouviu os aplausos de todos da faculdade. O covarde agressor sabia que se fizesse algo para nos impedir iria sofrer graves consequências, então saiu no meio da multidão, urrando de raiva e rancor.
Matheus se afastou. Todos aplaudiam. Ele me sorriu como o garoto bobo que era e me disse que tudo ia ficar bem.
- Tudo vai ficar bem – repetiu – porque eu te amo.
       
        

segunda-feira, 20 de março de 2017

Senti sua falta. 3



Prévia

        "O tempo pareceu parar. Me levantei calmamente, prendi a respiração, caminhei até ele. Matheus me olhava perdido, sem entender. Segurei-lhe o rosto com ambas as mãos, me aproximei devagar, e senti a textura dos lábios dele com os meus. Eram doces, sensíveis e macios.
        - Eu não vou deixar – falei, com a voz rouca, afastando o rosto do dele – essa é a minha nova vida. Eu não vou deixar um idiota como aquele estraga-la.
        - Do que você...
        Ele tentou falar, mas o interrompi com mais um beijo. Daquela vez e não apenas daquela vez eu o fiz sentir através de um gesto todo o amor que tinha."



        Capítulo III: Um soco na cara dói menos.


         Depois do beijo nada mais foi dito. Matheus me pediu para me afastar, pois ele havia ficado confuso. Decidi ir pra casa, afinal ainda não havia nem falado com meus pais. O interessante é que não estava com medo da amizade mudar, ou de ser rejeitado. Em algum ponto de mim sabia que tínhamos uma conexão forte. Mas será que poderíamos dar certo? Será que bastava?
        Ainda não havia contado para ninguém, mas tinha me matriculado em uma disciplina do semestre adiantado, aquele em que Matheus estaria. Dito e feito, cheguei no primeiro dia de aula e me sentei ao lado dele, que me sorriu feito bobo, me abraçou e se disse surpreso.
        - Você sabia que eu ia dar um jeito de fazer pelo menos uma disciplina contigo – eu falei.
        - Eu sabia, mas não sabia qual – ele disse sorrindo e tive que conter meu impulso de beijá-lo ali mesmo, na frente da turma.
        O professor entrou em sala e começou a tagarelar sobre a disciplina e os métodos dele. Meu amigo (amado) era um daqueles que anotavam tudo e prestavam atenção, e eu, claro, era o contraponto perfeito cutucando e mandando mensagens no meio da aula fazendo alguma piada ou coisa do tipo.
        No intervalo saímos para lanchar algo na cantina. E chegando lá a surpresa foi ver o Daniel parado, esperando.
        - Você voltou – ele me disse sem esconder o desgosto.
        - Você também, pelo visto – eu disse com um sorriso sarcástico no rosto.
        - Meninos, vamos lanchar o que? – Matheus perguntou já se afastando, mas ambos ficamos parados, encarando um ao outro em desafio.
        - Eu definitivamente não gosto de você – disse com toda a raiva que conseguia reunir.
        - Nem eu de você, garotinho arrogante. – Daniel deu um passo a frente e mesmo os prováveis 10 cm a mais que ele tinha de altura não me davam medo.
        - Arrogante? Eu? Quem nunca desceu do pedestal aqui é você, Daniel.
        - Hey! Que é isso vocês dois? – Matheus falou voltando pra perto da gente.
        - Sabe, Lucas, eu não gosto da sua amizadezinha com meu namorado.
        - E eu não gosto desse namorico. – então o Daniel deu mais um passo ficando tão perto que eu podia sentir a respiração alterada.
        - Então estamos falando a verdade? Finalmente.
        Ao longe podia ouvir o Matheus tentando apaziguar a situação. Aquela não era a primeira vez que estávamos beirando um conflito, e dessa vez eu queria ir até o fim.
        - Estamos sim, e já que estamos... Eu sei que você batia no Matheus, covarde.
        Os olhos dele se arregalaram e os dentes apareceram como um cachorro ameaçando. Matheus imediatamente colocou a mão no braço do Daniel, sabendo que a qualquer minuto a situação iria sair do controle.
        - Do que você ta falando?
        - Ei, é melhor vocês dois...
        - Cala a boca Matheus, que porra é essa que ele ta falando? – Daniel interrompeu o namorado com um safanão no braço.
        - Eu...
        - Eu vi as marcas, eu vi como você é covarde ao ponto de bater no próprio namorado – falei, arqueando meu peito.
        - E você é muito corajoso, né? – Daniel me empurrou contra a parede e pressionou a mão dele contra o meu peito – se metendo assim na relação dos outros...
        - Daniel para – Matheus tentou falar e foi empurrado, enquanto o namorado apontava o punho para mim.
        - Fala de novo, viadinho. Fala que eu quero ver – ele disse com os olhos injetados de ódio.
        - Você é um covarde, que não merece o namorado que tem.
        - E você merece?
        - Claro, eu o amo.

        Aquilo bastou. Um soco certeiro no meu nariz, a voz do Matheus gritando e empurrando o Daniel, a turma toda que havia se formado perto da gente falando algo que não escutei direito. Só sei que aquele soco bastou para eu cair no chão. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Senti sua falta.2


        Prévia
        “Ao abrir a porta dei de cara com um cachorro enorme, branco, que pulou em mim tentando me lamber. Gargalhei, larguei minhas coisas no sofá e comecei a correr com ele pela sala, brincando e sentindo todo o amor incondicional que me era ofertado.
        - Ele sentiu sua falta – Matheus sussurrou.
        Eu o encarei profundamente. Meu coração disparando. Minha boca secando. E disse:
        - E eu senti a falta dele. – “e a sua” completei mentalmente.
        E assim estava de volta para minha cidade que agora já não era a mesma, e tão pouco eu. “


        Capítulo II: Respirando sobre as lembranças.

        - Onde está a tia Marta? – perguntei e ele me guiou para o quintal.
        Tia Marta, como eu a chamava carinhosamente, estendia a roupa no final do quintal, quando me viu e o rosto se encheu de luz. Corri para abraça-la com o Noah (o cachorro branco do Matheus) em correndo em círculos ao meu redor. Meu amigo ficou parado, nos fitando de longe.
        - Menino mal criado, como teve coragem de sumir assim? – ela disse em tom de brincadeira, puxando levemente minha orelha.
        - A senhora sentiu minha falta? – perguntei com um sorriso largo.
        - Claro! Como não iria sentir?
        - Lucas! – Ouvi Matheus gritando por mim.
        - Vai lá, que ele também sentiu sua falta – ela disse piscando marotamente para mim.
        - Não mais que o Noah – eu falei rindo.
        - Não mais que o Noah, com certeza! – e gargalho suavemente, enquanto eu me afastava.
        Tia Marta era definitivamente minha maior shipper com o Matheus. Subi as escadas junto ao meu amigo, e entramos em seu quarto. Sentei na cama e ele numa cadeira próxima ao computador. Em poucos segundos estava confortável, como em minha própria casa.
        Pegamos as rosquinhas e o suco e ficamos conversando sobre tudo. Contei-lhe acerca das cidades que visitei e de como foi minha estadia na última cidade em que me estabilizei. Itapajé era pequena e aconchegante, com um clima agradável na maior parte do tempo. Havia serra por perto e conheci pessoas que me mostraram com simplicidade a cultivar algumas plantas.
        - E você? O que tem de novo pra contar? – perguntei com a boca cheia de canela e açúcar.
        - Aqui ta no de sempre... A faculdade um tédio, a Katarina continua me atazanando pra saber o teu telefone...
        Eu ri bastante. Ele me pôs a par das peripécias da graduação. Alguns professores continuavam a ser insuportáveis, outros pareciam ter mudado bastante pelo o que me falava. E então algo me passou a mente e perguntei:
        - Tudo continua igual?
        Ele me olhou, baixou o olhar, engoliu em seco. Sabia qual pergunta implícita estava contida ali. Então respirou fundo e respondeu de uma vez só:
        - Voltei com o Daniel.
        Minha vez de engolir em seco. Matheus começou a falar sem parar coisas que pra mim pouco importavam. Ele dizia que o ex havia dito que mudou e estava querendo dar o melhor de si. Daniel foi um dos motivos de eu ter sumido. Não aguentava mais ver as marcas roxas nos braços do meu amigo e não poder fazer nada.
        - Não vai falar nada? – ele me perguntou com uma cara de desamparado.
        O tempo pareceu parar. Me levantei calmamente, prendi a respiração, caminhei até ele. Matheus me olhava perdido, sem entender. Segurei-lhe o rosto com ambas as mãos, me aproximei devagar, e senti a textura dos lábios dele com os meus. Eram doces, sensíveis e macios.
        - Eu não vou deixar – falei, com a voz rouca, afastando o rosto do dele – essa é a minha nova vida. Eu não vou deixar um idiota como aquele estraga-la.
        - Do que você...

        Ele tentou falar, mas o interrompi com mais um beijo. Daquela vez e não apenas daquela vez eu o fiz sentir através de um gesto todo o amor que tinha.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Senti sua falta. 1

Capítulo I: Foi aqui que construímos nosso castelo de areia?


        Fazia alguns meses que eu havia fugido daquela cidade. Alguns fantasmas estavam me atormentando, nomes me rodeavam nas tradicionais ruas do centro. Foram tantas experiências e tantos medos de errar que eu precisei de um tempo. Sumi, com uma bolsa nas costas e algum dinheiro na poupança, troquei a faculdade pelo ônibus interurbano. Interestadual. E encontrei paz em uma pequena cidade do interior do Ceará.
        Voltei. Quando meus pés tocaram minha cidade natal um frio estranho percorreu minha coluna e se enfiou no meu estômago. Tirei o óculos esporte e respirei profundamente aquele ar poluído e impregnado de estresse. Sorri. Eu tinha uma longa trajetória para fazer antes de voltar para minha casa e precisava começar logo.
        Visitei uma padaria, comprei rosquinhas de canela. Fui ao mercantil e comprei suco de uva e chocolates. Parei a frente da porta da casa do Matheus. Toquei a campainha sabendo que ele já me esperava. Ele sempre me esperava.
        - SEU FILHO DE UMA... – ele gritou quando me viu e me deu um abraço que quase quebra minhas costelas. Eu apenas ri.
        Fez parte do meu plano sair sem contar para ele. Fez parte também mandar uma sms (antigo, né?) dizendo que iria passar um tempo sem contato humano, apenas avisando minha mãe que estava bem pra ela não me deserdar. Recebi uma resposta ultra desaforada dele... Mas em cada linha tinha uma pontinha de: “eu te entendo, fique bem”.
        - Como tu tem coragem de fazer uma coisa dessas?! – ele gritou mais uma vez, agarrando meus ombros e me encarando profundamente.
        - Oi. Tudo bem?
        Eu sorri. Ele sorriu. E nos abraçamos com mais carinho naquele momento.
        - Trouxe rosquinhas – disse – e presentes.
        Matheus era um garoto da minha altura, olhos negros e lábios vermelhos demais. E um grande gosto por surpresas. Na sua cara passaram sentimentos como raiva, dúvida e por fim, com um suspiro resignado, felicidade. Pegou em meu pulso direito e me puxou para dentro da casa dele.
        Ao abrir a porta dei de cara com um cachorro enorme, branco, que pulou em mim tentando me lamber. Gargalhei, larguei minhas coisas no sofá e comecei a correr com ele pela sala, brincando e sentindo todo o amor incondicional que me era ofertado.
        - Ele sentiu sua falta – Matheus sussurrou.
        Eu o encarei profundamente. Meu coração disparando. Minha boca secando. E disse:
        - E eu senti a falta dele. – “e a sua” completei mentalmente.

        E assim estava de volta para minha cidade que agora já não era a mesma, e tão pouco eu. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Se seu sangue fizesse parte de mim. 4



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"       - Ah, cala a boca – interrompi ele e o empurrei para o lado – olha o que você fez com minha mesa, com minha xícara! – me abaixei e toquei os cacos com um forte sentimento de nostalgia. Cada pedaço ao chão lembrava minha avó, que havia me criado como filha.
        - O que raios é você?!
        Olhei nos olhos dele com fúria e falei em alto e bom som:
        - Uma bruxa.
        E com um gesto da minha mão direita o vi cair de joelhos e ser preso por fios de energia invisíveis e silenciosos."


Capítulo IV: Se essa rua fosse minha.


                Despertei e estava deitada em uma cama com espaldar alto e uma ventilação maravilhosa. Não fazia frio, mas o vento que soprava da grande janela aberta me fazia querer permanecer ali, parada. Então ouvi um grito. Imediatamente meus sentidos despertaram e com um pulo saí da cama, abri a porta e corri pelo corredor, descendo as escadas de marfim com meus pés descalços.
        Alastor, meu amante, estava ajoelhado no centro da sala, com as mãos atadas e o corpo desnudo. Os olhos azuis dele tinham agora uma cor mais escura, e me fitou com tamanho desejo fúria que um grande arrepio se espalhou em mistura de medo e admiração.
        Um círculo de sal estava em volta dele, minhas tias e minha mãe mantinham-se afastadas citando mantras, rezando, invocando um poder hostil contra ele, que gritava, urrava, e tentava se libertar daquele lugar. Dei um passo em sua direção, mas uma mão me parou, era meu pai que detinha olhos avermelhados e inchados de chorar.
        - Não Maria, ele já não é mais seu amado.
        Olhei mais uma vez e vi as presas que adornavam-lhe a boca, o sangue que lhe sujava o rosto. Alastor tornara-se uma criatura de trevas e de horror, e eu desconfiava que nunca mais poderia tocá-lo em segurança.
        - Criatura defunta, criatura instintiva – bradou alto minha tia mais velha, a líder do nosso grupo de bruxas – ser vazio que atrai a morte. Ouça meu decreto e nunca mais aqui volte, nunca mais teu nome nos dirá, nunca mais nosso coven encontrará. Nenhuma de nós será teu alvo, e isso sempre nos manterá a salvo. E te amaldiçoou a sempre desencontrar, nessa vida e nas outras, Eleonor e a qualquer outro nome que ela venha a se chamar!
        Ouvi ele gritar mais uma vez e desaparecer. E assim também desapareci.

        Acordei assustada, sentada no sofá, com o vampiro a minha frente. Alastor era seu nome, meu amado de outras épocas, amaldiçoado para ficar longe de mim, e agora tão perto que eu poderia tocá-lo.
        - Alastor – minha voz o atingiu em cheio e com surpresa um grande sorriso se fez. Em segundos me vi sendo abraçada por um vampiro que chorava em meu ombro.
        - Eu te procurei por toda parte, eu esqueci teu nome, mas nunca quem você era pra mim, eu...
        - Como me encontrou? – perguntei me afastando, o encarando.
        - Isso é realmente importante?
        Calei-me. Não, naquele instante não era importante. Naquele instante a minha maior necessidade era apenas a da atitude que tomei a seguir, enquanto todas as minhas células vibravam com o toque dele.

        O beijei novamente. E fui feliz.