Capítulo II (anterior): https://teunomeeamor.blogspot.com.br/2017/01/afasta-de-mim-o-amor-2.html
Capítulo III: O que os
orixás dizem.
Acordei no avião. Sim, estava
viajando para uma cidade um tanto quanto distante para encontrar o tal
feiticeiro que o garoto me receitou. O menino conseguiu marcar uma consulta
para mim de última hora e tive que desembolsar algum dinheiro emergencial. Tudo
bem... Tudo ia ficar bem.
Minha amiga já havia me
ameaçado internar em um hospital de saúde mental. Dane-se. Desci do avião e no
meio do aeroporto meu salto quebrou. Claro que praguejei alto e todos ficaram
me olhando, até que um homem mais ou menos da minha idade se aproximou e
perguntou se eu precisava de ajuda. Neguei e segui meu rumo.
Comprei uma sandália rosa
daqueles tipos praianas, peguei o primeiro táxi e me olhei no espelho. Estava
assanhada, com cara de quem havia dormido pouquíssimo e a maquiagem meio
borrada. Limpei o que consegui e passei o trajeto resmungando sobre o quanto
aquele ano estava sendo injusto comigo.
Tive um péssimo réveillon.
Fui convidada para uma festa e fui. No fim brindei comigo mesma, por todos lá
estavam em casais e na hora dos fogos se beijaram. As poucas pessoas solteiras
era eu, umas crianças, e um senhorzinho muito simpático que me disse algo que
até hoje ressoava na minha cabeça: todo mundo espera a virada do ano, mas
poucos entendem sobre as reviravoltas da própria vida.
O táxi parou em frente a
uma casinha simples, em um bairro simples, com várias pessoas simples e
educadas à porta. Sai e fui atendida por uma jovem de cabelos crespos e vestido
rodado, que me conduziu de prontidão para a salinha do dono do lugar.
Ele era um homem
imponente, alto, vestido de branco e vários cordões coloridos. A sua frente encontrava-se
uma mesa com búzios que de quando em quando ele jogava, sorria, e voltava a
jogar. A moça me conduziu até uma cadeira, sentei e pensei o quanto aquele
lugar se parecia com outros lugares religiosos que já frequentei.
Havia um espelho próximo.
Olhei, passei a mão pelo cabelo, senti como se estivesse a dias sem dormir.
Precisava de um banho. Precisava...
- Moça – ele me chamou
delicadamente, pelo visto era a quarta vez que o fazia – o que a trás aqui?
- Eu... eu preciso de algo
para afastar o amor... – e lhe expliquei o que acontecia desde os 13 anos.
- Mas por que, jovem? –
ele jogou mais uma vez os búzios e nem me olhou enquanto perguntava.
- Eu... eu não lembro.
Ele me olhou compassivo,
jogou mais uma vez os búzios e disse em uma voz suave que você nunca espera de
uma pessoa tão alta e forte:
- Você tinha acabado de completar
13 anos quando seus pais se divorciaram, e foi nesse período que você teve sua
primeira decepção amorosa também.
Então lembrei. Sim, foi.
Quando meus pais se divorciaram me doeu muito e liguei para um grande amigo.
Ficamos naquele dia, e me senti um pouco melhor. Ele cuidou de mim. Mas então
no Natal ele sumiu, não me respondia mais, não falava mais. No dia 4, pela
manhã, eu estava voltando de viagem com minha mãe quando o vi beijando uma de minhas
amigas. Aquilo me doeu profundamente e me prometi nunca mais amar.
Chorei. Chorei
copiosamente. Escondi meu rosto com as mãos. Não sei ao certo por quanto tempo
fiquei, mas quando me acalmei, depois de receber um copo com água, o homem a
minha frente simplesmente disse:
- O que você precisa
mesmo, é deixar o passado no tempo dele.
E talvez aquela fosse toda
a verdade que ele poderia me dizer.
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