segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Afasta de mim o amor. 3



Capítulo III: O que os orixás dizem.


Acordei no avião. Sim, estava viajando para uma cidade um tanto quanto distante para encontrar o tal feiticeiro que o garoto me receitou. O menino conseguiu marcar uma consulta para mim de última hora e tive que desembolsar algum dinheiro emergencial. Tudo bem... Tudo ia ficar bem.
Minha amiga já havia me ameaçado internar em um hospital de saúde mental. Dane-se. Desci do avião e no meio do aeroporto meu salto quebrou. Claro que praguejei alto e todos ficaram me olhando, até que um homem mais ou menos da minha idade se aproximou e perguntou se eu precisava de ajuda. Neguei e segui meu rumo.
Comprei uma sandália rosa daqueles tipos praianas, peguei o primeiro táxi e me olhei no espelho. Estava assanhada, com cara de quem havia dormido pouquíssimo e a maquiagem meio borrada. Limpei o que consegui e passei o trajeto resmungando sobre o quanto aquele ano estava sendo injusto comigo.
Tive um péssimo réveillon. Fui convidada para uma festa e fui. No fim brindei comigo mesma, por todos lá estavam em casais e na hora dos fogos se beijaram. As poucas pessoas solteiras era eu, umas crianças, e um senhorzinho muito simpático que me disse algo que até hoje ressoava na minha cabeça: todo mundo espera a virada do ano, mas poucos entendem sobre as reviravoltas da própria vida.
O táxi parou em frente a uma casinha simples, em um bairro simples, com várias pessoas simples e educadas à porta. Sai e fui atendida por uma jovem de cabelos crespos e vestido rodado, que me conduziu de prontidão para a salinha do dono do lugar.
Ele era um homem imponente, alto, vestido de branco e vários cordões coloridos. A sua frente encontrava-se uma mesa com búzios que de quando em quando ele jogava, sorria, e voltava a jogar. A moça me conduziu até uma cadeira, sentei e pensei o quanto aquele lugar se parecia com outros lugares religiosos que já frequentei.
Havia um espelho próximo. Olhei, passei a mão pelo cabelo, senti como se estivesse a dias sem dormir. Precisava de um banho. Precisava...
- Moça – ele me chamou delicadamente, pelo visto era a quarta vez que o fazia – o que a trás aqui?
- Eu... eu preciso de algo para afastar o amor... – e lhe expliquei o que acontecia desde os 13 anos.
- Mas por que, jovem? – ele jogou mais uma vez os búzios e nem me olhou enquanto perguntava.
- Eu... eu não lembro.
Ele me olhou compassivo, jogou mais uma vez os búzios e disse em uma voz suave que você nunca espera de uma pessoa tão alta e forte:
- Você tinha acabado de completar 13 anos quando seus pais se divorciaram, e foi nesse período que você teve sua primeira decepção amorosa também.
Então lembrei. Sim, foi. Quando meus pais se divorciaram me doeu muito e liguei para um grande amigo. Ficamos naquele dia, e me senti um pouco melhor. Ele cuidou de mim. Mas então no Natal ele sumiu, não me respondia mais, não falava mais. No dia 4, pela manhã, eu estava voltando de viagem com minha mãe quando o vi beijando uma de minhas amigas. Aquilo me doeu profundamente e me prometi nunca mais amar.
Chorei. Chorei copiosamente. Escondi meu rosto com as mãos. Não sei ao certo por quanto tempo fiquei, mas quando me acalmei, depois de receber um copo com água, o homem a minha frente simplesmente disse:
- O que você precisa mesmo, é deixar o passado no tempo dele.

E talvez aquela fosse toda a verdade que ele poderia me dizer.

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