Capítulo I: Foi aqui que
construímos nosso castelo de areia?
Fazia alguns
meses que eu havia fugido daquela cidade. Alguns fantasmas estavam me
atormentando, nomes me rodeavam nas tradicionais ruas do centro. Foram tantas
experiências e tantos medos de errar que eu precisei de um tempo. Sumi, com uma
bolsa nas costas e algum dinheiro na poupança, troquei a faculdade pelo ônibus
interurbano. Interestadual. E encontrei paz em uma pequena cidade do interior
do Ceará.
Voltei.
Quando meus pés tocaram minha cidade natal um frio estranho percorreu minha
coluna e se enfiou no meu estômago. Tirei o óculos esporte e respirei profundamente
aquele ar poluído e impregnado de estresse. Sorri. Eu tinha uma longa
trajetória para fazer antes de voltar para minha casa e precisava começar logo.
Visitei
uma padaria, comprei rosquinhas de canela. Fui ao mercantil e comprei suco de
uva e chocolates. Parei a frente da porta da casa do Matheus. Toquei a campainha
sabendo que ele já me esperava. Ele sempre me esperava.
- SEU
FILHO DE UMA... – ele gritou quando me viu e me deu um abraço que quase quebra
minhas costelas. Eu apenas ri.
Fez parte
do meu plano sair sem contar para ele. Fez parte também mandar uma sms (antigo,
né?) dizendo que iria passar um tempo sem contato humano, apenas avisando minha
mãe que estava bem pra ela não me deserdar. Recebi uma resposta ultra
desaforada dele... Mas em cada linha tinha uma pontinha de: “eu te entendo,
fique bem”.
- Como tu
tem coragem de fazer uma coisa dessas?! – ele gritou mais uma vez, agarrando
meus ombros e me encarando profundamente.
- Oi. Tudo
bem?
Eu sorri. Ele
sorriu. E nos abraçamos com mais carinho naquele momento.
- Trouxe
rosquinhas – disse – e presentes.
Matheus
era um garoto da minha altura, olhos negros e lábios vermelhos demais. E um
grande gosto por surpresas. Na sua cara passaram sentimentos como raiva, dúvida
e por fim, com um suspiro resignado, felicidade. Pegou em meu pulso direito e
me puxou para dentro da casa dele.
Ao abrir a
porta dei de cara com um cachorro enorme, branco, que pulou em mim tentando me
lamber. Gargalhei, larguei minhas coisas no sofá e comecei a correr com ele
pela sala, brincando e sentindo todo o amor incondicional que me era ofertado.
- Ele
sentiu sua falta – Matheus sussurrou.
Eu o
encarei profundamente. Meu coração disparando. Minha boca secando. E disse:
- E eu
senti a falta dele. – “e a sua” completei mentalmente.
E assim estava
de volta para minha cidade que agora já não era a mesma, e tão pouco eu.
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