segunda-feira, 6 de março de 2017

Senti sua falta. 1

Capítulo I: Foi aqui que construímos nosso castelo de areia?


        Fazia alguns meses que eu havia fugido daquela cidade. Alguns fantasmas estavam me atormentando, nomes me rodeavam nas tradicionais ruas do centro. Foram tantas experiências e tantos medos de errar que eu precisei de um tempo. Sumi, com uma bolsa nas costas e algum dinheiro na poupança, troquei a faculdade pelo ônibus interurbano. Interestadual. E encontrei paz em uma pequena cidade do interior do Ceará.
        Voltei. Quando meus pés tocaram minha cidade natal um frio estranho percorreu minha coluna e se enfiou no meu estômago. Tirei o óculos esporte e respirei profundamente aquele ar poluído e impregnado de estresse. Sorri. Eu tinha uma longa trajetória para fazer antes de voltar para minha casa e precisava começar logo.
        Visitei uma padaria, comprei rosquinhas de canela. Fui ao mercantil e comprei suco de uva e chocolates. Parei a frente da porta da casa do Matheus. Toquei a campainha sabendo que ele já me esperava. Ele sempre me esperava.
        - SEU FILHO DE UMA... – ele gritou quando me viu e me deu um abraço que quase quebra minhas costelas. Eu apenas ri.
        Fez parte do meu plano sair sem contar para ele. Fez parte também mandar uma sms (antigo, né?) dizendo que iria passar um tempo sem contato humano, apenas avisando minha mãe que estava bem pra ela não me deserdar. Recebi uma resposta ultra desaforada dele... Mas em cada linha tinha uma pontinha de: “eu te entendo, fique bem”.
        - Como tu tem coragem de fazer uma coisa dessas?! – ele gritou mais uma vez, agarrando meus ombros e me encarando profundamente.
        - Oi. Tudo bem?
        Eu sorri. Ele sorriu. E nos abraçamos com mais carinho naquele momento.
        - Trouxe rosquinhas – disse – e presentes.
        Matheus era um garoto da minha altura, olhos negros e lábios vermelhos demais. E um grande gosto por surpresas. Na sua cara passaram sentimentos como raiva, dúvida e por fim, com um suspiro resignado, felicidade. Pegou em meu pulso direito e me puxou para dentro da casa dele.
        Ao abrir a porta dei de cara com um cachorro enorme, branco, que pulou em mim tentando me lamber. Gargalhei, larguei minhas coisas no sofá e comecei a correr com ele pela sala, brincando e sentindo todo o amor incondicional que me era ofertado.
        - Ele sentiu sua falta – Matheus sussurrou.
        Eu o encarei profundamente. Meu coração disparando. Minha boca secando. E disse:
        - E eu senti a falta dele. – “e a sua” completei mentalmente.

        E assim estava de volta para minha cidade que agora já não era a mesma, e tão pouco eu. 

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