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" Ele afastou-se num passo da dança, olhando-me
profundamente e todas minhas dúvidas foram sanadas. Havia uma urgência, uma
necessidade... Ele sabia de algo que eu não desconfiava. E então a festa fez
mais sentido, a pompa... Eles iriam noivar.
- E então?
Música parou, eu respirei fundo, acenei que
sim com a cabeça em uma atitude impulsiva e me afastei, aproveitando a
distração da música para subir ao meu quarto. Pegaria o que me era mais
importante e fugiríamos. Seja lá para onde fosse, fazer o que quer que fosse...
eu estaria com ele e ele comigo e isso era o bastante.
Se ao
menos tivéssemos conseguido fugir... tudo teria sido diferente."
Capítulo III
...Tem tempo a perder.
Quando
desci já havia jogado pela janela uma trouxinha com algumas joias e outras
bobagens que nos ajudariam a arrecadar algum dinheiro no futuro. Quando cheguei
a sala ouvi que saudavam os dois. O noivado se delineava, meu pai me chamou
para que os cumprimentasse e o fiz com forçada alegria. Eu amava minha irmã e
queria a felicidade dela, mas não era nem de longe amor que Sophia sentia, era
apenas um desejo por liberdade que no futuro entenderia que o casamento não se
tratava disso.
Caminhei
até eles e fiz o que deveria. Minha irmã olhou-me sorrindo, mas este não alcançava
os olhos. Afastei-me e vi todas as tramas envolvidas naquele momento, saí para
a varanda quando tudo amenizou e a festa prosseguiu normalmente. Parei notando
a Lua e pensando se deveria realmente seguir, se seria justo com as pessoas que
estavam lá. Minha irmã, meus pais... deixei um bilhete escondido no travesseiro
explicando o que acontecia brevemente.
Andei até
a trouxa jogada abaixo da minha janela e segui para os estábulos. Meus pais não
dariam por minha falta naquela altura da festa. Respirei profundamente e me
deixei vagar por cada momento de felicidade que passei. As lembranças me
inundaram com tal força que algumas lágrimas transbordaram.
E então
escutei um tiro e cavalos se aproximando da casa grande. Gritei e me encostei
na porta, quase querendo me camuflar nela. Minhas pernas não se moviam. Apenas
meus olhos observavam o movimento de pessoas na casa. Então vi um homem se
aproximando a passos rápidos. Pensei que seria Enzo, mas logo notei ser
Guilherme que vinha assustado.
-
Senhorita! O que faz aqui?!
- Gui....
Guilherme – gaguejei sem conseguir sair do lugar. Ele olhou-me minhas mãos
apertando a trouxinha e se compreendeu nunca disse. Apenas suspirou e
segurou-me levemente pelo antebraço.
- Você
deve vir comigo senhorita.
- O que
aconteceu?
- A guerra
estourou.
Foi tudo
que precisou dizer-me para que desgrudasse do chão. Ele pegou-me a trouxinha e
escondeu em um arbusto e retornou a me conduzir para a casa grande. Entramos
pela cozinha e ele me levou em segurança até a sala de jantar onde as mulheres
se reuniam esperando a decisão dos homens que conversavam na biblioteca.
- Mamãe...
- sussurrei ao abraça-la.
- Onde
você estava menina? – ela me segurou com força pelos ombros, olhando-me com
desespero.
- Eu...
- Ela
estava no quarto minha senhora – disse Guilherme – decidi trazê-la comigo para
cá, seria mais seguro.
- Sim,
sim, agora saia, vá para a cozinha – ela disse com rispidez. Quando o rapaz
saiu virou-se para mim e disse – eu odeio essa sua “amizade” com ele.
- Mamãe,
eu...
E então a
porta abriu e meu pai estava à frente do cortejo de homens. Enzo estava mais
pálido e assustado, como quem acaba de saber da morte de um parente próximo.
Imediatamente o medo dele me tomou, lágrimas pesadas escorreram e meu pai veio
ao meu encontro para me consolar com um abraço sob o olhar reprovador de minha
mãe.
- A guerra
está instaurada – a voz dele retumbou pela sala – não há o que ser feito.
Nossos homens irão nos proteger, não se preocupem.
“Nossos
homens irão nos proteger, não se preocupem”. A frase reverberou. Eu
imediatamente encarei Enzo que me olhava com a mesma intensidade. A tradução da
frase para mim era simples... e eu preferia não dizê-la em voz alta.

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