segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Provavelmente sobre como salvamos o universo, ou não. 4


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        "Pelo que entendemos o carinha “amigo dela” tentou sequestra-la, mas ela o fez desmaiar e fugiu. O que até então não havíamos entendido era do que fugíamos, e para onde iríamos... Mas quem é que sabia na verdade?
        - O que nós temos que fazer? – Mia gritou, o desespero claro nos olhos.
        - Eu preciso entregar essa chave e... – a Tempo respondeu em meio a correria.
        - Por qual motivo? Que raios de chave é essa?"

Capítulo IV: Quando [toda] a chuva passar


        Quando dei por mim estávamos no exato mesmo lugar, porém tudo parecia brilhar em tons de amarelo e laranja. A Tempo agora parecia maior, o vestido cresceu tocando o chão e se espalhando, com todas as estampas de flores desabrochadas e escondendo pequenos pedaços azuis.
        - O que aconteceu? – perguntei me aproximando dela, e notando que os demais estavam estáticos, absortos.
        - Você aconteceu. – e ela tocou-me com carinho o rosto e notei que os olhos da Tempo pareciam duas contas de ônix, profundas e misteriosas.
        Ela andou até uma das árvores, baixou a cabeça em reverência, e a abraçou. Aquele gesto pareceu para mim o mais puro e delicado que poderia vivenciar. Não tive coragem de dar um passo, ou mesmo respirar de forma brusca.
De repente um grande cervo surgiu, aproximou-se dela e fez uma reverência. Tempo afastou-se da árvore, curvou-se e tocou o belo animal entre os chifres. Ela retirou um colar que tinha no pescoço com uma chave e colocou em um dos chifres dele, que partiu imediatamente.
Voltando para perto de mim, Tempo continuou a explicar:
- Eu carrego comigo um fardo pesado. Curo, tiro vidas, dou vidas. Ensino sobre o presente, o futuro e o passado. Guardo memórias e sobretudo cuido para que os ciclos continuem. Uma hora as pessoas devem sentir-se tristes, para que nas outras os sorrisos sejam mais verdadeiros.
“Porém os humanos esquecem e temem o sofrimento.” Ela continuou “eles fogem sempre do que pode lhes causar dor. Eu entendo isso, e não acredito que devam viver na dor, mas esquecem que o sofrer ensina e melhora. O problema não é lutar pela felicidade, mas tornar-se insensível, incrédulo, temeroso ao ponto de nunca se entregar, nunca ter fé, e morrer em vida.”
Eu entendia cada palavra que me era dita, e ouvia com ternura. Era uma sabedoria antiga e profunda que jamais experimentaria novamente.
- E quando o temor torna-se maior que a esperança, quando esquecem que depois da tempestade sempre virá o melhor momento... A vida torna-se fardo, e o equilíbrio é destruído. Mas fica melhor, sempre depois da dor viver se torna melhor.
- O que era aquela chave? – perguntei ao notar que ela havia terminado.
- Eu entreguei a humanidade um presente, e eles aceitarão de diversas formas. Amigos que acolherão suas dores, profissionais que serão capazes de ler almas, livros que confortarão os medos, músicas que abrirão a mente. Eu enviei um novo ciclo, para que se encontrem e achem as próprias formas de felicidade.
        - E eu? Porque você disse que eu aconteci?
- Porque o que move o tempo a salvar é o amor.
E ela me abraçou.

Desmaiei e acordei ao lado dos meus amigos na casa da Mia. Em meu peito uma forte sensação de felicidade, de completude, de acerto. Do meu lado, no chão, um relógio de bolso com uma frase gravada: é o amor que faz o tempo curar.


        E acaba aqui nossa história de setembro. Pra fazer diferente, amanhã vou postar algumas considerações sobre ela na minha página do face, ok? Então fiquem de olho. Um abraço e até mais!
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