segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Outubro Bruxo. 1


        - Não entendo o motivo das pessoas me temerem. – dizia Katarine enquanto recolhia ervas no jardim.
        A velhice chegara como uma adorada companheira, não havia medo em nenhuma das rugas espalhadas pelo corpo. Enquanto a Lua Cheia brilhava no céu, e aos poucos as flores brancas ia sendo jogadas na cestinha, Katarine pensava sobre os mistérios da alma humana, sobre as verdades enraizadas em cada fio da mente.
        - Eles temem meu amor? Ou é o meu conhecimento?
        Deixou de lado a faca, sentou-se no banco próximo e preparou-se para suas orações. Katarine era bruxa, nascida com uma pequena mancha em forma de estrela, predestinada a grandes feitos. Certa vez viu uma mãe desesperada pela gravidade da doença da única filha. A mulher recorreu a bruxa implorando por salvação, e depois da filha ter se recuperado espalhou pelo vilarejo que os poderes da bruxa vinham de pactos escusos e cruéis. Pura bobagem.
        Ela aprendeu a Arte com a própria mãe, que conhecia o poder das ervas como nenhuma outra pessoa. Aprendeu a respeitar o que vinha da natureza, a honrar a Lua e o Sol, adquirindo o conhecimento através da ancestralidade, do próprio sangue, da própria vida. Nunca preciso de pactos, ou coisas do tipo... Seu poder vinha da Grande Mãe, dos ciclos naturais, e isso lhe bastava.
        - Será que eles temem minha fé? Ou é aquilo que vivo?
        O ritmo dela era o ritmo do próprio coração. Seguia vivendo com tranquilidade. Estudou sobre chás e cristais, sobre astrologia e numerologia, sobre as estações do ano e sobre a influência das cores. Gostava ainda mais do balançar das árvores e das ondas do mar.
        - O que será que eles temem em mim.
        Então, com uma das flores colhidas voando para longe, viu uma mulher de longos cabelos cinzas se aproximar. Era idosa, e andava devagar arrastando um vestido branco e prateado. Katarine sabia que era, e a recebeu com carinho. Receber Cerridwen de braços abertos fazia parte dos seus ensinamentos.
        - Veio me levar? – a bruxa perguntou humildemente, sorrindo.
        Com um gesto simples a Deusa de face pálida confirmou. Erguendo uma mão para que Katarine segurasse e pudessem partir.
        - Me concede a resposta para apenas uma pergunta? – disse a bruxa – Porque eles sempre me temeram?
        - Por que você é livre e diferente, e sendo assim você é feliz. E esse é o seu poder. A felicidade alheia dói para aqueles que não escolhem alcança-la.
        E assim Katarine partiu para uma nova jornada. Livre, plena, bruxa e principalmente: feliz.

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