- Não
entendo o motivo das pessoas me temerem. – dizia Katarine enquanto recolhia
ervas no jardim.
A velhice
chegara como uma adorada companheira, não havia medo em nenhuma das rugas
espalhadas pelo corpo. Enquanto a Lua Cheia brilhava no céu, e aos poucos as
flores brancas ia sendo jogadas na cestinha, Katarine pensava sobre os
mistérios da alma humana, sobre as verdades enraizadas em cada fio da mente.
- Eles
temem meu amor? Ou é o meu conhecimento?
Deixou de
lado a faca, sentou-se no banco próximo e preparou-se para suas orações. Katarine
era bruxa, nascida com uma pequena mancha em forma de estrela, predestinada a
grandes feitos. Certa vez viu uma mãe desesperada pela gravidade da doença da
única filha. A mulher recorreu a bruxa implorando por salvação, e depois da
filha ter se recuperado espalhou pelo vilarejo que os poderes da bruxa vinham
de pactos escusos e cruéis. Pura bobagem.
Ela
aprendeu a Arte com a própria mãe, que conhecia o poder das ervas como nenhuma
outra pessoa. Aprendeu a respeitar o que vinha da natureza, a honrar a Lua e o
Sol, adquirindo o conhecimento através da ancestralidade, do próprio sangue, da
própria vida. Nunca preciso de pactos, ou coisas do tipo... Seu poder vinha da
Grande Mãe, dos ciclos naturais, e isso lhe bastava.
- Será que
eles temem minha fé? Ou é aquilo que vivo?
O ritmo
dela era o ritmo do próprio coração. Seguia vivendo com tranquilidade. Estudou
sobre chás e cristais, sobre astrologia e numerologia, sobre as estações do ano
e sobre a influência das cores. Gostava ainda mais do balançar das árvores e
das ondas do mar.
- O que
será que eles temem em mim.
Então, com
uma das flores colhidas voando para longe, viu uma mulher de longos cabelos
cinzas se aproximar. Era idosa, e andava devagar arrastando um vestido branco e
prateado. Katarine sabia que era, e a recebeu com carinho. Receber Cerridwen de
braços abertos fazia parte dos seus ensinamentos.
- Veio me
levar? – a bruxa perguntou humildemente, sorrindo.
Com um
gesto simples a Deusa de face pálida confirmou. Erguendo uma mão para que
Katarine segurasse e pudessem partir.
- Me
concede a resposta para apenas uma pergunta? – disse a bruxa – Porque eles
sempre me temeram?
- Por que
você é livre e diferente, e sendo assim você é feliz. E esse é o seu poder. A
felicidade alheia dói para aqueles que não escolhem alcança-la.
E assim
Katarine partiu para uma nova jornada. Livre, plena, bruxa e principalmente:
feliz.

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