segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Talvez o amor seja um tipo de comida. 3




Capítulo III: Quem sabe o amor não é tempero caseiro?


        Dentro de poucas horas estava em minha cidade. Desejei com todas as forças que fosse um engano, um trote para me fazerem voltar. Encontrei minha mãe no hospital, a vias de fazer uma cirurgia as pressas por conta de algo que estava adiando e não havia comunicado a família... erro típico de quem acha que tem saúde de ferro.
        Foram horas de tortura psicológica. Com pouquíssimas informações, fiquei ziguezagueando na sala de espera, querendo saber qualquer detalhe que fosse. Minha irmã ao meu lado, ainda mais nervosa. Meu pai... Esse parecia que perdera peso e tornara-se alguns tons mais pálido. O medo, o anseio, a ansiedade... Tudo se somando ao fator surpresa. Coração na mão.
        Recebi uma ligação. Era Mira. Ela me deixou mais tranquilo, com aquela voz serena e o jeito quase despreocupado. Perguntou-me se eu queria que ela viajasse, dispensei educadamente, não fazia sentido. Na mesma hora pensei nas colorações do cabelo dela, no sorriso, na forma como mordia o lábio. Pensei no cheiro de lavanda. E senti calma.
        Recebemos a notícia que minha mãe passava bem... Respiramos. De forma automática começamos a ligar para parentes próximos e amigos para avisá-los do estado dela. Assumi a função de cuidador integral, monitorando as melhorias e repassando. Minha irmã cuidava de meu pai, o que era tortuoso visto que o homem era teimoso como uma mula ou até mais.
        Um dia de recuperação e o medo de perdê-la se entranhava em minhas vísceras. Não poder mais sentir o calor, ouvir os conselhos, abraçar e implicar, até mesmo ouvi-la reclamar... Assustava. Lembrei do cheiro de carne assanha na cebola que se espalhava pela casa aos domingos, com todos reunidos, rindo, e nas últimas vezes com uma leve degustação de vinho pois todos éramos maiores de idade.
        A primeira semana passou com dificuldade, mas as horas de visita eram deliciosas. Aos poucos mamãe sorria, e me abraçava e dizia que eu estava mais magro, precisava comer. A primeira frase foi: “você voltou de viagem por mim? Que bobagem, eu estou ótima... Foi só desgosto por você ter sumido sem me avisar.” Rimos bastante.
        E conforme ela se recuperava eu também me recuperava. Recebi ligações periódicas de Mira, alguns duraram 10 minutos, outras 1 hora... Todas me acalmavam e me faziam lembrar que havia alguém ali, de cabelos em várias cores, que torcia por mim quase incondicionalmente. Isso esquentava o coração.
        Foi aí que percebi. Quase um mês depois, sentado numa banco de uma praça, agradecendo a recuperação de minha mãe... Notei que a queria perto de mim. E liguei para Mira. E apenas disse:
        - Vem me ver.
        E torci para que talvez ela viesse.

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