sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Talvez o amor seja um tipo de comida. 4



Capítulo IV: Seja lá qual for... O amor é saboroso.

       
        Dias depois me vi em frente ao aeroporto, chovia bastante e eu segurava um guarda-chuva preto. Meu coração disparava, a garganta meio seca, a vontade de dar um passo para trás e retornar. A palavras da minha ex reverberaram: você não sabe amar. E se eu não soubesse amar Mira também? E se a necessidade de tê-la por perto fosse só um desejo infantil, bobo, de alguém que nem ao menos sabia o que queria.
        Dei um passo para trás. Apertei o cabo do guarda-chuva mais forte, de modo que as juntas dos meus dedos ficaram esbranquiçadas. Ainda faltavam alguns minutos para eu ela chegasse, isso se o avião não atrasasse. Ainda havia tempo de desistir e de salvá-la do meu caos pessoal.
        - Vamos entrar? – ouvi uma voz ao meu lado e me assustei.
        Quando virei olhei a bruxa que me aparecera no ano novo, usando uma capa de chuva, sorrindo ternamente. Ela me ofereceu a mão e a segurei com cautela. Fui puxado para dentro do aeroporto.
        Sentamos numa daquelas cadeiras próximas ao portão de desembarque. A grande movimentação do aeroporto parecia paralisada, as respirações presas, o ar afetado com nossa presença. Era como se o tempo parasse e ali eu pudesse fazer minha devida escolha com calma.
        - Você ia desistir? – ela me perguntou, puxando minha mão direita e analisando minha palma.
        - Eu... Se eu não souber amar?
        - Qual o seu medo quanto a isso? – perguntou me olhando nos olhos.
        - Magoá-la, feri-la...
        - Lembra? Eu disse que ia te ensinar a amar – disse-me com um sorriso.
        - Sim, não sei se consegui aprender.
        - Qual sua maior qualidade?
        - Minha coragem.
        - E defeito?
        - Não penso em ninguém...
        - Não? E como pensou em sua mãe quando ela adoeceu? E como está pensando em Mira agora?
        - Como... – mas o resto da frase morreu em minha boca. A bruxa ergueu-se, sorrindo como quem vence uma partida importante e me disse:
        - O segredo do amor é doar. Entregar o que temos, sentir e simplesmente sentir, pensar no outro e nos sacrificar pelo outro. E ao mesmo tempo... O maior segredo do amor... Aquele que poucos conhecem...
        E então vi Mira sair do portão de embarque, levantei-me de supetão e corri de encontro a ela. Esqueci a bruxa, esqueci o guarda-chuva, esqueci meu medo. Nela estava tudo o que eu queria. Nela estava amar.
        - O maior segredo do amor, caro leitor – disse a bruxa – é a reciprocidade.

        E pegando o guarda-chuva o outro ela deixou o aeroporto, buscando ensinar para mais alguém o precioso segredo que detinha. Esperando que algum dia ela mesma pudesse aprender como era amar.

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