Capítulo I: https://teunomeeamor.blogspot.com.br/2016/12/talvez-o-amor-seja-um-tipo-de-comida-1.html
Capítulo III (anterior): https://teunomeeamor.blogspot.com.br/2016/12/talvez-o-amor-seja-um-tipo-de-comida-3.html
Capítulo
IV: Seja lá qual for... O amor é saboroso.
Dias
depois me vi em frente ao aeroporto, chovia bastante e eu segurava um
guarda-chuva preto. Meu coração disparava, a garganta meio seca, a vontade de
dar um passo para trás e retornar. A palavras da minha ex reverberaram: você
não sabe amar. E se eu não soubesse amar Mira também? E se a necessidade de
tê-la por perto fosse só um desejo infantil, bobo, de alguém que nem ao menos
sabia o que queria.
Dei um
passo para trás. Apertei o cabo do guarda-chuva mais forte, de modo que as
juntas dos meus dedos ficaram esbranquiçadas. Ainda faltavam alguns minutos
para eu ela chegasse, isso se o avião não atrasasse. Ainda havia tempo de
desistir e de salvá-la do meu caos pessoal.
- Vamos
entrar? – ouvi uma voz ao meu lado e me assustei.
Quando
virei olhei a bruxa que me aparecera no ano novo, usando uma capa de chuva,
sorrindo ternamente. Ela me ofereceu a mão e a segurei com cautela. Fui puxado
para dentro do aeroporto.
Sentamos
numa daquelas cadeiras próximas ao portão de desembarque. A grande movimentação
do aeroporto parecia paralisada, as respirações presas, o ar afetado com nossa
presença. Era como se o tempo parasse e ali eu pudesse fazer minha devida
escolha com calma.
- Você ia
desistir? – ela me perguntou, puxando minha mão direita e analisando minha
palma.
- Eu... Se
eu não souber amar?
- Qual o
seu medo quanto a isso? – perguntou me olhando nos olhos.
-
Magoá-la, feri-la...
- Lembra?
Eu disse que ia te ensinar a amar – disse-me com um sorriso.
- Sim, não
sei se consegui aprender.
- Qual sua
maior qualidade?
- Minha
coragem.
- E
defeito?
- Não
penso em ninguém...
- Não? E
como pensou em sua mãe quando ela adoeceu? E como está pensando em Mira agora?
- Como... –
mas o resto da frase morreu em minha boca. A bruxa ergueu-se, sorrindo como
quem vence uma partida importante e me disse:
- O
segredo do amor é doar. Entregar o que temos, sentir e simplesmente sentir,
pensar no outro e nos sacrificar pelo outro. E ao mesmo tempo... O maior
segredo do amor... Aquele que poucos conhecem...
E então vi
Mira sair do portão de embarque, levantei-me de supetão e corri de encontro a
ela. Esqueci a bruxa, esqueci o guarda-chuva, esqueci meu medo. Nela estava
tudo o que eu queria. Nela estava amar.
- O maior
segredo do amor, caro leitor – disse a bruxa – é a reciprocidade.
E pegando
o guarda-chuva o outro ela deixou o aeroporto, buscando ensinar para mais
alguém o precioso segredo que detinha. Esperando que algum dia ela mesma pudesse
aprender como era amar.
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