Capítulo I: A vela na
janela.
“5 de janeiro de 2000.
Acordei determinada. Ajeitei minhas tranças, usei um vestido bem florido,
passei até batom (que minha mãe não veja). Corri o máximo que podia, peguei o
caminho mais curto. O cheiro de alecrim invadiu minhas narinas assim que entrei
no jardim de vovó, lancei minhas sandálias longe, queria sentir a grama
pinicando o solado do pé.
Vovó abriu a porta e me sorriu como
sempre, abracei-a e ouvi um sermão por conta do batom. Então perguntei-lhe
sobre Nossa Senhora, a quem ela era muito devotada, e se a Virgem poderia
cuidar de mim se lhe fizesse um pedido especial. Vovó, demonstrando certa
emoção, pegou uma velinha pequena daquelas de enfeite, de cor rosa, e me
entregou dizendo que com certeza a Mãe me ouviria.
Corri para a pequena gruta que tinha
na casa de vovó, depositei a vela e acendi fazendo um simples e único pedido:
- Afasta de mim o amor.
Um forte vento ergueu meu vestido e eu
tive a certeza que havia sido escutada.”
5
de janeiro de 2016. Acordei mais uma vez determinada. Me espreguicei, e saltei
para fora da cama. Fui ao banheiro e me higienizei. Seriam três horas de viagem
de carro até a casa que era de vovó, então teria que me apressar. Mas sabe
quando absolutamente nada da certo? Todos os meus vestidos ou estavam sujos ou
emprestados, pela primeira vez em 17 anos tive que ir de calça e sapatinha, e
uma camisa nada florida.
Saí
do quarto e esbarrei na minha amiga que havia ido dormir lá. Ela claramente
havia tido uma noite ótima, sorria de ponta a ponta, falando sobre o encontro
com o garanhão da zona sul. Bufei, bebi correndo uma xícara de café (que
queimou minha língua) e engoli a força uma torrada cor de carvão.
Ao
descer o elevador ainda tive que ouvir a senhora do andar de cima reclamar do
síndico, do porteiro, da zeladora, do zelador, da faxineira, dos outros
condôminos... Enfim. Mas respirei fundo. Sou uma pessoa calma. Sou uma pessoa
calma. Sou uma...
-
O caral** que eu sou calma! – gritei em plenos pulmões ao ver o engarrafamento
medonho que teria que enfrentar. Olhei o relógio e notei o motivo: horário de
pico. Ninguém que não fosse obrigado com uma arma na cabeça sairia naquela hora
em plenas férias. Exceto eu, claro, a doida.
Estacionei
o carro muito mais tarde do que previ. Desci, a sapatinha rasgou o solado.
Joguei fora. Fui andando a pé os poucos metros até... Até... “Pera”. Olhei para
todos os lados. Verifiquei uma, duas e três vezes a numeração. E só então me
toquei que as ruínas da casa de vovó não estavam mais lá, nem a mísera gruta
que até ano passado estivera intacta, e sim um comércio enorme.
Liguei
para mamãe.
-
Cadê a casa da vovó?
-
Hán? – ela perguntou atordoada – Bom dia menina... Como...
-
Mãe, eu to com pressa. Cadê a casa da vovó? – enfatizei cada sílaba.
-
Seu tio Marcos vendeu ano passado. Tavam querendo construir...
Pá.
Desliguei. Depois pediria desculpas e inventaria uma bobagem. Senti vertigem.
-
Merda. – última palavra que saiu da minha boca antes escorregar pela parede do
comércio e ficar estática sentada no chão.
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