terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Se seu sangue fizesse parte de mim.

Capítulo I: Um homem bateu em minha porta e eu abri.


        Era segunda-feira, a Lua Minguante anunciava o fim de vários dos meus planos e estava lidando bem com isso. No momento pegava uma xícara com chá de alfazema, pronta para aliviar as tensões do dia e pedir proteção aos meus guardiões. Sentei no sofá e deixei que minha mente fluísse por todo meu corpo, sentindo os escudos, as defesas, os espíritos animais que me guardavam. Ouvi a campainha tocar enquanto senti minhas defesas oscilarem, havia algo bem errado naquilo.
        Morava num apartamento grande, antigo, deixado de presente pela minha avó, e nunca havia acontecido de não me informarem a chegada de uma visita pelo interfone. Deixei o pouco que restava do chá sobre a mesa de centro, atravessei a sala e ao tocar a maçaneta me perguntei mil vezes se deveria realmente abrir.
Meu nome é Lana, sou ruiva, tenho olhos negros, e sou bruxa também. De verdade, não aquelas do folclore que você conhece. Antes que me perguntem eu tenho um caldeirão, faço feitiços e não... Não me alimento de criancinhas nem muito menos faço sacrifícios de virgens. E principalmente não cultuo o demônio. Obrigado pela curiosidade.
        Abri a porta e a minha frente estava parado um homem alto, loiro, e branco feito um giz. Os lábios finos entreabertos e ofegantes, os cabelos desgrenhados, a roupa muito formal e amassada, os olhos azuis intensamente assustados. Uma sensação forte de medo e admiração se fincou em minhas entranhas, e eu me perdi por alguns segundos nos intenso mar que se desdobrava na forma como ele me encarava.
        - Posso entrar? – a voz dele era um pedido, uma ordem e uma ação infeliz. Havia um encanto sobre aquelas palavras, e eu conhecia bem demais a magia para entender.
        - Não. – Eu disse facilmente e por uma fração de segundos tive a ânsia de fechar a porta. Deveria ter feito isso... Mas ousei continuar parada.
        Foi então que senti uma grande energia atravessando minhas barreiras e se esgueirando por minha mente como uma cobra pronta para fincar as presas. Ele estava tentando me hipnotizar. E eu que gostava de perigo queria ver até onde isso ia...
        - Permita a minha entrada em sua casa – ele me disse. Fingi estar sob o encanto que me lançou e lhe respondi:
        - Eu permito sua entrada na minha casa.
        Foi imediato, o homem que não era bruxo nem humano adentrou e trancou a porta em segundos. E em segundos também me vi presa contra a parede, com o homem revelando-me os caninos protuberantes e os olhos azuis claros transformados em tom marinho profundo, sedento de prazer e fome. Um vampiro.
        Não houve tempo para pensar e contestar. Ele tentou enfiar os dentes em meu pescoço e um forte facho de luz se fez presente enviando-o pelos ares, fazendo-o cair sobre a mesinha de centro e quebrá-la em pedaços. Passei a mão por minhas vestes alisando alguns amassados invisíveis, depois pelo cabelo jogando-o para trás e arqueei a sobrancelha em desafio.
        - O que é você?! – perguntou-me assustado o homem a minha frente – que raios foi isso?!
        - Como você ousa invadir meu lar e ainda tentar se alimentar de mim, criatura mesquinha?
        Ele ergueu-se em frações de tempo e estava a minha frente, mais uma vez tentando lançar-se sobre minha mente.
        - Esqueça o que acabou de acontecer... Abrigue-me por essa noite, sinta-se...
        - Ah, cala a boca – interrompi ele e o empurrei para o lado – olha o que você fez com minha mesa, com minha xícara! – me abaixei e toquei os cacos com um forte sentimento de nostalgia. Cada pedaço ao chão lembrava minha avó, que havia me criado como filha.
        - O que raios é você?!
        Olhei nos olhos dele com fúria e falei em alto e bom som:
        - Uma bruxa.
        E com um gesto da minha mão direita o vi cair de joelhos e ser preso por fios de energia invisíveis e silenciosos.

                

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