Capítulo
I: Um homem bateu em minha porta e eu abri.
Era
segunda-feira, a Lua Minguante anunciava o fim de vários dos meus planos e
estava lidando bem com isso. No momento pegava uma xícara com chá de alfazema,
pronta para aliviar as tensões do dia e pedir proteção aos meus guardiões.
Sentei no sofá e deixei que minha mente fluísse por todo meu corpo, sentindo os
escudos, as defesas, os espíritos animais que me guardavam. Ouvi a campainha
tocar enquanto senti minhas defesas oscilarem, havia algo bem errado naquilo.
Morava num
apartamento grande, antigo, deixado de presente pela minha avó, e nunca havia
acontecido de não me informarem a chegada de uma visita pelo interfone. Deixei
o pouco que restava do chá sobre a mesa de centro, atravessei a sala e ao tocar
a maçaneta me perguntei mil vezes se deveria realmente abrir.
Meu nome é Lana, sou
ruiva, tenho olhos negros, e sou bruxa também. De verdade, não aquelas do
folclore que você conhece. Antes que me perguntem eu tenho um caldeirão, faço
feitiços e não... Não me alimento de criancinhas nem muito menos faço
sacrifícios de virgens. E principalmente não cultuo o demônio. Obrigado pela
curiosidade.
Abri a
porta e a minha frente estava parado um homem alto, loiro, e branco feito um
giz. Os lábios finos entreabertos e ofegantes, os cabelos desgrenhados, a roupa
muito formal e amassada, os olhos azuis intensamente assustados. Uma sensação
forte de medo e admiração se fincou em minhas entranhas, e eu me perdi por
alguns segundos nos intenso mar que se desdobrava na forma como ele me
encarava.
- Posso
entrar? – a voz dele era um pedido, uma ordem e uma ação infeliz. Havia um
encanto sobre aquelas palavras, e eu conhecia bem demais a magia para entender.
- Não. –
Eu disse facilmente e por uma fração de segundos tive a ânsia de fechar a
porta. Deveria ter feito isso... Mas ousei continuar parada.
Foi então
que senti uma grande energia atravessando minhas barreiras e se esgueirando por
minha mente como uma cobra pronta para fincar as presas. Ele estava tentando me
hipnotizar. E eu que gostava de perigo queria ver até onde isso ia...
- Permita
a minha entrada em sua casa – ele me disse. Fingi estar sob o encanto que me
lançou e lhe respondi:
- Eu
permito sua entrada na minha casa.
Foi
imediato, o homem que não era bruxo nem humano adentrou e trancou a porta em
segundos. E em segundos também me vi presa contra a parede, com o homem
revelando-me os caninos protuberantes e os olhos azuis claros transformados em
tom marinho profundo, sedento de prazer e fome. Um vampiro.
Não houve
tempo para pensar e contestar. Ele tentou enfiar os dentes em meu pescoço e um
forte facho de luz se fez presente enviando-o pelos ares, fazendo-o cair sobre
a mesinha de centro e quebrá-la em pedaços. Passei a mão por minhas vestes
alisando alguns amassados invisíveis, depois pelo cabelo jogando-o para trás e
arqueei a sobrancelha em desafio.
- O que é
você?! – perguntou-me assustado o homem a minha frente – que raios foi isso?!
- Como
você ousa invadir meu lar e ainda tentar se alimentar de mim, criatura
mesquinha?
Ele
ergueu-se em frações de tempo e estava a minha frente, mais uma vez tentando
lançar-se sobre minha mente.
- Esqueça
o que acabou de acontecer... Abrigue-me por essa noite, sinta-se...
- Ah, cala
a boca – interrompi ele e o empurrei para o lado – olha o que você fez com
minha mesa, com minha xícara! – me abaixei e toquei os cacos com um forte
sentimento de nostalgia. Cada pedaço ao chão lembrava minha avó, que havia me
criado como filha.
- O que
raios é você?!
Olhei nos
olhos dele com fúria e falei em alto e bom som:
- Uma
bruxa.
E com um
gesto da minha mão direita o vi cair de joelhos e ser preso por fios de energia
invisíveis e silenciosos.
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