domingo, 19 de março de 2017

Um conto mitológico... Afrodite.

        Meus pés descalços ressoavam no mármore branco e gélido do palácio Olimpiano. Coberta com apenas um fino lençol de seda, tentava desbravar os corredores procurando um lugar para me esconder, enquanto senti a presença de Hefesto em todo o lugar. O cheiro dele impregnava o ar, era suor e ferro derretido, fazia pesar até mesmo a mais leve brisa. Encontrei uma porta dourada que abri com facilidade e entrei.
        - Afrodite! – gritou-me o dono do aposento, enquanto eu fechava a porta atrás de mim.
        - Apolo.
        O Deus estava tomando vinho deitado na cama. O cabelo solto emoldurando o rosto jovial, o dorso desnudo contrastando com o preto dos lençóis. O restante do quarto era decorado em dourado e prata, o que o tornava ainda mais interessante. Aquela não era a primeira vez que estava ali, e pelo que conhecia do filho do Sol... Não seria a última.
        - Fugindo do marido?
        - Ai... – falei sentando-me ao pé da cama dele – ele está aqui novamente.
        - Porque não o larga de uma vez? – com um gesto da mão a porta se trancou e uma outra taça de vinho veio em minha direção, que aceitei com delicadeza.
        - Eu fui obrigada a casar com ele e... e...
        - E o ama?
        Fiquei calada observando alguns detalhes no chão do quarto. Amor. Eu, que era a Deusa do amor, buscava ele em vários lugares e sempre me achava parada na frente de um homem ou outro. Amor. Aquela palavra esquisita que os humanos tendiam a superestimar, meu filho, meu próprio filho Eros. Amor... Eu me amava, isso era certo, mas quem mais? O ogro do meu marido? O ardente amante Deus da Guerra? O poderoso filho do Sol? Qual dos meus muitos homens eu amava?
        - Será que eu o amo? – pensei em voz alta.
        - Será que você ama alguém além de si mesma, Afrodite?
        Observei-o se aproximar. Observei o beijo que veio em seguida, o carinho na nuca, o puxar para perto de si. Deixe-me levar e lentamente senti o corpo de Apolo contra o meu, a mão dele percorrendo meus cabelos, os lábios entrelaçados de forma quase vaidosa. Será que eu amava alguém?

        Então aquela frase tornou-se longínqua, as palavras perdiam o efeito e eu sabia... Eu definitivamente sabia que talvez eu não amasse alguém, mas amava o momento, o presente, o gosto de vinho e o poder que uma Deusa poderia ter ao ser livre para ser.

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