Meus pés
descalços ressoavam no mármore branco e gélido do palácio Olimpiano. Coberta
com apenas um fino lençol de seda, tentava desbravar os corredores procurando
um lugar para me esconder, enquanto senti a presença de Hefesto em todo o
lugar. O cheiro dele impregnava o ar, era suor e ferro derretido, fazia pesar
até mesmo a mais leve brisa. Encontrei uma porta dourada que abri com
facilidade e entrei.
-
Afrodite! – gritou-me o dono do aposento, enquanto eu fechava a porta atrás de
mim.
- Apolo.
O Deus
estava tomando vinho deitado na cama. O cabelo solto emoldurando o rosto
jovial, o dorso desnudo contrastando com o preto dos lençóis. O restante do
quarto era decorado em dourado e prata, o que o tornava ainda mais interessante.
Aquela não era a primeira vez que estava ali, e pelo que conhecia do filho do
Sol... Não seria a última.
- Fugindo
do marido?
- Ai... –
falei sentando-me ao pé da cama dele – ele está aqui novamente.
- Porque
não o larga de uma vez? – com um gesto da mão a porta se trancou e uma outra
taça de vinho veio em minha direção, que aceitei com delicadeza.
- Eu fui
obrigada a casar com ele e... e...
- E o ama?
Fiquei
calada observando alguns detalhes no chão do quarto. Amor. Eu, que era a Deusa
do amor, buscava ele em vários lugares e sempre me achava parada na frente de
um homem ou outro. Amor. Aquela palavra esquisita que os humanos tendiam a
superestimar, meu filho, meu próprio filho Eros. Amor... Eu me amava, isso era
certo, mas quem mais? O ogro do meu marido? O ardente amante Deus da Guerra? O
poderoso filho do Sol? Qual dos meus muitos homens eu amava?
- Será que
eu o amo? – pensei em voz alta.
- Será que
você ama alguém além de si mesma, Afrodite?
Observei-o
se aproximar. Observei o beijo que veio em seguida, o carinho na nuca, o puxar
para perto de si. Deixe-me levar e lentamente senti o corpo de Apolo contra o
meu, a mão dele percorrendo meus cabelos, os lábios entrelaçados de forma quase
vaidosa. Será que eu amava alguém?
Então
aquela frase tornou-se longínqua, as palavras perdiam o efeito e eu sabia... Eu
definitivamente sabia que talvez eu não amasse alguém, mas amava o momento, o
presente, o gosto de vinho e o poder que uma Deusa poderia ter ao ser livre
para ser.
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